Mulheres plus size na meia-idade: por que não queremos mais esse rótulo na moda

Você já percebeu com que naturalidade o mundo da moda usa as palavras “plus size”, como se fossem neutras e inofensivas? No papel, parece um termo técnico. Na vida real, muitas vezes soa como um enorme letreiro de néon dizendo: “Você está fora do padrão.”

Para muitas mulheres plus size na meia-idade, especialmente se vestimos tamanhos 44 ou acima, esse rótulo e padrão de beleza patriarcal, pode soar como um tapa na cara. Quando foi que um corpo que se parece com o de mais da metade das mulheres que você vê no Tesco (cadeia de supermercado na Inglaterra) de repente se tornou “plus”? E plus o quê, exatamente – plus indigno, plus invisível, plus difícil?

Se você é nova por aqui e está lidando com as mudanças da meia-idade, talvez também goste do meu Guia da Menopausa, onde reúno o básico sobre hormônios, sintomas e como eles podem afetar coisas como peso e imagem corporal.

Afinal, quem inventou o “plus size”?

A história do termo “plus size”

O rótulo não caiu do céu; surgiu da indústria da moda tentando organizar e vender roupas em um mundo de mercado de massa. Quando as roupas prontas para vestir decolaram no início do século XX, as marcas precisavam de palavras para diferentes tipos de corpo – e, surpresa, surpresa, elas não escolheram uma linguagem neutra.

Uma das primeiras grandes varejistas dos EUA a ter como alvo mulheres de tamanhos maiores foi a Lane Bryant. No início do século XX, eles criaram roupas para “Grávidas e Recém-nascidos” e, em seguida, lançaram uma categoria chamada “Para a Mulher Robusta”, com tamanhos de busto de 38 a 56 polegadas. A palavra “robusta” soa antiquada hoje, mas diz tudo sobre como as mulheres mais cheias eram vistas: não como clientes normais, mas como um problema especial e à parte a ser resolvido.

Na década de 1920, Lane Bryant começou a anunciar “tamanhos plus para moças”, oferecendo tamanhos de 16 a 30 e reconhecendo que os moldes padrão simplesmente não serviam para muitas mulheres. Em poucos anos, eles abandonaram a palavra “moças” e mantiveram o termo com o qual ainda convivemos hoje: plus size.

Aqui está o ponto crucial: o termo originalmente se referia a roupas, não a pessoas. Descrevia faixas de tamanhos ampliadas, não alguma categoria moral de feminilidade. Mas, na década de 1950, as marcas já falavam de “mulheres plus size” em seus anúncios, mudando discretamente o foco da linguagem das roupas para os corpos. Mais uma vez, o corpo se torna a questão, não o produto limitado.

Quem decidiu o que conta como “normal” ou “plus size”?

Qual é o tamanho “médio” para as mulheres hoje?

Vamos falar sobre essa palavra que fica silenciosamente ao lado de “plus”: normal.

Se dissermos “plus size”, estamos dizendo discretamente que tudo até esse ponto é o padrão, o ponto de referência.  Acima disso? Você é extra e uma exceção. Você tem sorte se nos dermos ao trabalho de criar roupas para você.

O mais incrível é que o tamanho “padrão” na moda muitas vezes não chega nem perto do corpo da mulher média. Dados do aplicativo de estilo Mys Tyler sugerem que no Reino Unido, a mulher média veste entre o tamanho 16 e 18 – 44/46 no Brasil. Os números mostram que cerca de 62% das mulheres no Reino Unido vestem tamanho 16 ou acima, e quase metade é considerada “plus size” no tamanho 18+.

Então, vamos deixar isso bem claro: quase metade das mulheres britânicas usa tamanhos que a indústria rotula como “plus size”. Isso não é um nicho. Isso não é um caso isolado. É uma parcela enorme da população. Por que estamos chamando a norma estatística de “plus size”?​

Dados internacionais contam uma história semelhante. Estimativas apontam que A média nos EUA também fica em torno do 16–18. No entanto, as modelos que você vê nas passarelas e campanhas são muito menores: um relatório constatou que apenas cerca de 2,4% dos looks na London Fashion Week AW24 eram “plus size”, embora quase metade das mulheres se enquadre nessa categoria.

Em outras palavras, o “normal” na moda tem sido definido por tamanhos de amostra, pelo patriarcado e por um ideal de beleza muito restrito – não pelos corpos reais das mulheres.

Brasil (BR) Reino Unido (UK) EUA (US) Europa (EU)
36 8 4 36
38 10 6 38
40 12 8 40
42 14 10 42
44 16 12 44
46 18 14 46
48 20 16 48
50 22 18 50

Como isso se traduz para mim, como mulher “plus size”

Atualmente uso o tamanho 44/46. Antes da menopausa, eu sempre usei o tamanho 40. O motivo deste artigo é que estou realmente cansada dos rótulos atribuídos às mulheres plus size na meia-idade. Não sou “plus size” nem qualquer outra coisa que queiram me chamar. Já tenho preocupações suficientes tentando lidar com o que a Mãe Natureza nos deu, a nós mulheres, como um “presente grego” na meia-idade, a menopausa.

Indústria da moda, parem e olhem ao redor. Não é porque temos mais de 50 anos que, de repente, queremos nos vestir como nossas avós costumavam (desculpem, sem ofensa às avós). Adoro moda e quero as mesmas calças, vestidos e jeans legais que as mulheres que vestem o tamanho 40 estão usando.

Os homens têm “big and tall” e as mulheres têm “plus size”

Existe um equivalente masculino para tamanhos maiores, mas é enquadrado de maneira diferente. Os varejistas há muito tempo usam “Big and Tall” para descrever roupas masculinas maiores, e há todo um segmento “big and tall” no mercado. Mas essa linguagem não carrega o mesmo olhar de reprovação que “plus size” carrega para as mulheres. “Big and Tall” pode até soar um pouco inspirador – alto, forte, robusto –, enquanto “plus size” para mulheres é frequentemente tratado como um problema a ser resolvido.

Raramente se ouve um homem ser descrito socialmente como “plus size”. As mulheres, por outro lado, têm esse rótulo associado aos nossos corpos, à nossa saúde e até mesmo ao nosso valor.

Essa diferença não é acidental. Ela reflete uma cultura que é muito mais severa com a aparência das mulheres e, especialmente, com o peso delas.

Mulheres plus size na meia-idade:

Padrões de tamanho que viram rótulos

Para as mulheres na meia-idade, isso atinge de forma particularmente dura. Já estamos lidando com a menopausa, mudanças hormonais, alterações no metabolismo e um corpo que pode não responder à alimentação e aos exercícios da mesma forma que quando tínhamos 25 anos. E justamente quando estamos ficando mais sábias e mais equilibradas, a cultura ainda tenta nos diminuir – literal e figurativamente.

O problema não é que as marcas ofereçam diferentes tamanhos – isso é prático e útil. O problema é a maneira como essas categorias se transformam em hierarquias: tamanhos regulares, “petite” (pequeno, mas aceitável), “plus” (demais, mas vamos criar uma seção para você lá no fundo, ao lado dos elevadores e da iluminação fluorescente).

Quando você é uma mulher na meia-idade, talvez um tamanho 44 ou acima, procurando um vestido que se adapte à sua vida real – trabalho, filhos adolescentes, pais idosos, ondas de calor –, ser encaminhada para um canto separado de “tamanhos grandes” pode parecer como se estivessem lhe dizendo, mais uma vez: você não pertence à história principal.

E, no entanto, estatisticamente, nós somos a história. Nossos corpos estão mais próximos da média do que o manequim tamanho 8 jamais esteve. O rótulo não descreve a realidade; ele impõe uma fantasia.

As marcas podem limitar os tamanhos – mas não têm o direito de nos rotular

As marcas podem, sem dúvida, decidir para qual faixa de tamanhos elas criam seus designs. Esse é o modelo de negócios delas. O que elas não precisam fazer é rotular as mulheres fora dessa faixa como “plus”.

Se uma marca para no tamanho 14 do Reino Unido, o que ela está realmente dizendo é: “Não criamos para a mulher britânica média.” Essa é a limitação delas, não a sua. No entanto, pela forma como a linguagem é usada, é a mulher que veste jeans tamanho 18 que é chamada de “plus size”, não a marca que é chamada de “menos inclusiva”.

Imagine inverter isso: em vez de “mulheres plus size”, falamos de “marcas de gama limitada”. Em vez de as mulheres se desculparem por precisarem de um tamanho 16 ou 18, as marcas têm de explicar por que se recusam a ter em estoque os tamanhos que a maioria das mulheres realmente usa.

Alguns varejistas estão começando a entender isso. Houve tentativas de criar gamas de tamanhos “totalmente inclusivas”, nas quais os mesmos modelos estão disponíveis em vários tamanhos, em vez de relegar os tamanhos maiores para uma minicoleção separada com designs completamente diferentes. Mesmo quando essas iniciativas tropeçam, elas comprovam o argumento: as pessoas querem roupas, não estigma.

Seu corpo não é “plus”. Seu corpo é o cliente. Se uma etiqueta não serve, a culpa é do produto, não sua.

Por que o rótulo “plus size” dói mais na meia-idade

Para as leitoras do Silverlocks – mulheres de tamanho plus com 45, 50, 60 anos e mais – isso não se trata apenas de compras. Trata-se de identidade e de como escolhemos viver a segunda metade de nossas vidas.

A meia-idade geralmente vem acompanhada de redistribuição de peso na região abdominal devido a mudanças hormonais, inchaço, retenção de líquidos ou mudança no tamanho do busto. As prioridades agora são diferentes – conforto, qualidade e praticidade – em vez de nos espremermos em algo minúsculo.

Ao mesmo tempo, carregamos décadas de mensagens sobre “cuidar da silhueta”, “não nos descuidarmos” e “parecer jovens”. O rótulo “plus size” explora esse antigo condicionamento e tenta nos manter obedientes e apologéticas.

Mas muitas de nós simplesmente não aguentamos mais.

Cansamos de pedir desculpas por existir em um corpo que carregou gestações, traumas, carreiras, relacionamentos, perdas e alegrias. Cansamos de recompensar marcas que fingem que a mulher média ainda veste tamanho 38. Cansamos de acreditar que ser “plus” em qualquer coisa nos torna inferiores.

Na verdade, na meia-idade, somos plus em experiência, plus em sabedoria, plus em limites, plus em “não, obrigada” a bobagens. A única coisa que não temos a mais é paciência para rótulos que nos diminuem.

Para outras mulheres na meia-idade

Se você já ficou em um provador, puxando um zíper e pensando: “Então é isso, agora sou oficialmente plus size”, quero dizer isso claramente:

Você não é um rótulo. Você não é uma categoria na planilha de um comprador. Você não é um problema a ser resolvido por designers.

Você é uma mulher de meia-idade completa e complexa, com muito mais em seu currículo do que um tamanho de roupa.

E se você se sente irritada com a injustiça de tudo isso, não é porque você está sendo hipersensível. É você, como tantas mulheres plus size na meia-idade, reconhecendo um sistema construído sobre padrões de beleza patriarcais e decidindo que prefere sair dele.

Nesta fase da vida, não precisamos ser menores para ocupar espaço. Precisamos ser mais assertivas, mais gentis conosco mesmas e mais exigentes com as indústrias que querem nosso dinheiro enquanto desrespeitam nossos corpos.

Então, não, você não é “plus size”.

Você é apenas do seu tamanho.

E isso é mais do que suficiente.

Aviso – Esta é uma reflexão pessoal sobre imagem corporal e linguagem da moda, não um conselho médico ou terapêutico. Corpos e experiências são diversos; se você estiver preocupada com sua saúde, converse com um profissional qualificado em quem confie.

Ann Moeller

Ann tem 54 anos e já está na pós-menopausa. Santista, mora na Europa desde 1990. Já esteve em Portugal, Alemanha, Inglaterra e, desde 2020 mora na Polônia. Estudou engenharia, trabalhou com marketing e criou e atuou como editora-chefe do site Brasileiras Pelo Mundo. Ann tem um casal de filhos adultos, adora dançar, nadar, música gótica e dos anos 80, quebra-cabeças e dias de inverno com neve. É apaixonada por psicologia — especialmente TDAH — depois de receber seu próprio diagnóstico aos 52 anos. Tem a síndrome de Ehlers-Danlos (tipo hipermobilidade), então conhece na prática os desafios da menopausa com dor crônica, fadiga e um sistema nervoso sensível. Silverlocks reúne sua experiência de vida, curiosidade, pesquisa sobre o “temido M” e histórias sinceras para mulheres prontas para abraçar um novo capítulo em suas vidas.

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