Menopausa e TDAH: quando a ‘névoa mental’ não é só menopausa

Menopausa e TDAH são uma combinação complicada e exaustiva, para ser sincera. Se você está na casa dos 40 ou 50 anos e, de repente, sente que seu cérebro parou de cooperar, você definitivamente não é a única. Muitas mulheres chegam à perimenopausa ou menopausa e percebem uma grande mudança no foco, na memória, no humor e na energia – e se você também tem TDAH (diagnosticado ou não), essa mudança pode parecer menos uma “fase ruim” e mais uma crise de identidade.

Se você quiser ter uma visão mais ampla do que está acontecendo na meia-idade, talvez ache útil o Guia da Menopausa e também o meu diagnóstico de TDAH aos 52 anos.

Menopausa e TDAH: O que realmente acontece com os nossos cérebros

A menopausa não se resume apenas ao fim da menstruação. Os anos que antecedem esse momento (perimenopausa) e o período após a última menstruação estão associados a grandes alterações hormonais, especialmente nos níveis de estrogênio e progesterona. Esses hormônios interagem com áreas do cérebro envolvidas na memória, atenção e humor, razão pela qual muitas mulheres percebem uma “confusão mental” na meia-idade. Quando se acrescenta o TDAH a essa mistura, ele pode ampliar cada um desses desafios.

Organizações de saúde e especialistas em menopausa reconhecem agora que sintomas cognitivos – como dificuldade de concentração e de memória – são comuns durante a transição da menopausa e que são frequentemente influenciados por distúrbios do sono, ansiedade e baixo astral.

A boa notícia é que, para muitas mulheres, essas mudanças cognitivas não são um sinal de demência, mas uma resposta a alterações hormonais, estresse e sono perturbado.

Menopausa e TDAH: por que tantos casos passam despercebidos até a meia-idade

O TDAH em mulheres muitas vezes se apresenta de forma diferente do estereótipo de um menino hiperativo. Pode ser mais discreto, mais interno e mais fácil de esconder. Muitas mulheres crescem sendo chamadas de “sonhadoras”, “desorganizadas”, “muito sensíveis” ou “preguiçosas”, enquanto secretamente se esforçam o dobro do que todos os outros apenas para manter a vida em andamento.

Pesquisas mostram que mulheres com TDAH frequentemente relatam um longo histórico de se sentirem incompreendidas, autocríticas e sem apoio antes de finalmente receberem um diagnóstico na idade adulta.

O TDAH em adultos é diagnosticado com base em um padrão de sintomas como desatenção (facilidade de distração, esquecimento, desorganização) e/ou hiperatividade-impulsividade (inquietação, interrupção, dificuldade de esperar) que começaram na infância e ainda afetam a vida cotidiana.

Muitas mulheres só descobrem que têm TDAH quando:

  • Suas estratégias de enfrentamento deixam de funcionar.
  • Suas responsabilidades aumentam (carreira, família, papéis de cuidadora).
  • Ou uma grande mudança hormonal – como a perimenopausa – torna tudo mais difícil.

Como a menopausa pode agravar os sintomas do TDAH

Se você já tem TDAH, a menopausa pode parecer que alguém aumentou o volume de todos os sintomas. Pesquisas e estudos recentes sugerem que mulheres com TDAH frequentemente experimentam um agravamento significativo dos sintomas durante a perimenopausa e a menopausa, especialmente em relação à desatenção, problemas de memória e regulação emocional.

Você de repente começa a perder coisas constantemente (chaves, telefone, óculos, entre outros). Tem dificuldade para lembrar palavras, nomes ou o que você estava prestes a dizer.  Sente um aumento da ansiedade ou sobrecarga emocional. Nota que tem mais dificuldade para iniciar tarefas, especialmente as chatas e tem a sensação de estar mentalmente “mais lenta” ou confusa.

A confusão mental relacionada à menopausa, por si só, pode afetar a memória e a concentração, particularmente em mulheres que apresentam ondas de calor, suores noturnos, sono de má qualidade ou sintomas de humor. Quando se soma o TDAH a isso, os problemas de função executiva (planejamento, organização, memória de trabalho, controle de impulsos) podem parecer quase incontroláveis.

Para muitas de nós, esse é o ponto em que não conseguimos mais esconder o quanto estamos nos esforçando apenas para passar por um dia normal.

O que poderia ter sido um hábito levemente frustrante aos 30 anos pode se transformar em uma grande fonte de ressentimento aos 50.

O segredo é reconhecer que há dois processos biológicos reais em ação: uma condição de desenvolvimento neurológico (TDAH) e uma transição hormonal (menopausa). Quando você percebe ambos, fica mais fácil passar de “o que há de errado comigo” para “de que apoio e sistemas eu preciso?”

A busca constante por “algo novo” – e oportunidades perdidas

Um dos aspectos mais dolorosos do TDAH nas mulheres é a sensação de potencial perdido. Um cérebro com TDAH costuma ser atraído por novidades, emoção e novas ideias. Isso pode torná-la criativa, empreendedora e espontânea – mas também pode levar a:

  • Começar novos projetos e não concluí-los.
  • Mudar de emprego ou carreira com frequência.
  • Abandonar cursos, hobbies ou planos de longo prazo.
  • Permanecer em (ou sair de) relacionamentos de forma impulsiva.

Com o tempo, esse padrão pode deixar um rastro de planos pela metade e de “e se”. Muitas mulheres com diagnósticos tardios de TDAH descrevem olhar para trás e ver um padrão consistente de oportunidades perdidas e decisões tomadas a partir de um lugar de sobrecarga, em vez de clareza. Quando a menopausa chega e sua névoa cerebral e ansiedade aumentam, pode parecer que suas chances estão se esgotando: “Se ainda não descobri até agora, talvez nunca descubra.”

É aqui que a auto compaixão se torna essencial. Compreender o TDAH não apaga essas oportunidades perdidas, mas as re interpreta. Em vez de “Eu falhei”, passa a ser “Eu estava tentando navegar pela vida com um cérebro que nunca foi apoiado ou compreendido – e agora posso fazer as coisas de maneira diferente.”

Foto de: Tara Winstead/Pexels

Por que um diagnóstico de TDAH após os 50 anos pode mudar tudo

Você pode se perguntar: “Será que faz sentido ser diagnosticada na minha idade?” A resposta, para muitas mulheres, é um sim muito claro. O diagnóstico de TDAH em adultos envolve uma avaliação cuidadosa dos sintomas, do histórico e do impacto atual na vida. Para mulheres na meia-idade, esse processo muitas vezes se sobrepõe à avaliação da menopausa, porque muitos sintomas podem parecer semelhantes à primeira vista.

Um diagnóstico pode dar a você as palavras para descrever o que você tem vivido, pode ajudá-la a separar o TDAH de “falhas de personalidade”, pode abrir opções de tratamento (medicação, terapia, adaptações no local de trabalho) e também pode melhorar a comunicação em seus relacionamentos (“é assim que meu cérebro funciona, e é isso que me ajuda”).

Pesquisas com mulheres diagnosticadas na idade adulta mostram que muitas experimentam uma forte sensação de alívio e autocompreensão, juntamente com a tristeza pelos anos passados sem diagnóstico. Essa mistura — alívio e tristeza — é muito normal.

menopausa e TDAH

Minha história: quando a menopausa e TDAH se encontraram aos 52

Sou a prova viva do que o TDAH desconhecido e não tratado, aliado à menopausa, pode causar a uma pessoa. Tenho 54 anos agora, e na tenra idade de 52 finalmente recebi meu diagnóstico oficial de TDAH. Digo “oficial” porque todos os sinais estavam lá, se você soubesse como procurá-los. Naquele momento, toda a minha vida de repente fez sentido — os problemas, as oportunidades perdidas e as decisões erradas. Toda a tensão, a busca constante por algo que eu nem conseguia nomear. Cinquenta e dois anos da minha vida explicados em um único momento. Foi exatamente assim que me senti. De repente, meu comportamento tinha um nome.

Há cerca de sete anos, comecei a ter sinais de perimenopausa, mas na época eu não fazia ideia. Para ser sincera, isso nem passou pela minha cabeça. Comecei a ter menstruações muito intensas – super intensas – e elas estavam afetando minha vida cotidiana. Meu médico de família prescreveu a pílula de forma contínua, o que significou o fim daquelas menstruações horríveis todos os meses. Fiquei tão feliz: sem anemia, sem precisar cancelar reuniões, parecia que tinha recuperado minha vida. Sangramento menstrual intenso como esse é, na verdade, comum na perimenopausa e é reconhecido como algo que deve ser avaliado e tratado.

No entanto, a pílula também fez com que eu não percebesse os sintomas da menopausa se desenvolvendo em segundo plano. Só há cerca de dois anos parei de tomá-la e, por causa disso, não sei ao certo quando a perimenopausa terminou ou quando a menopausa realmente começou. Resumindo: parei de tomar a pílula, esperei minha menstruação voltar… e ela nunca veio. Eu já estava na menopausa.

Meu diagnóstico de TDAH aconteceu mais ou menos na mesma época. De repente, comecei a me sentir muito nervosa, extremamente ansiosa, e fui atingida por uma intensa névoa cerebral. Parecia ter surgido do nada, e era muito forte. Quase da noite para o dia, comecei a esquecer palavras e onde havia deixado meu celular. Depois foram as chaves, compromissos, alimentar os cães… e a lista continuava. A névoa cerebral relacionada à menopausa e as dificuldades com a memória, a atenção e a busca por palavras são comuns, especialmente quando o sono e o humor também são afetados. Para mim, porém, não era apenas a menopausa. Meu TDAH estava amplificando tudo.

Sinceramente, me sentia perdida e, às vezes, até um pouco com medo do mundo ao meu redor. “Surreal” é dizer o mínimo. Pesquisas e levantamentos mostram agora que muitas mulheres com TDAH relatam que seus sintomas pioram visivelmente durante a perimenopausa e a menopausa, especialmente a sensação de sobrecarga e os problemas de memória.

Hoje em dia, as coisas estão mais sob controle. Estou fazendo TRH, estou na pós-menopausa e, aos poucos, estou me recompondo e tentando me sentir mais no controle da minha vida novamente. A terapia hormonal pode ser uma das várias opções para ajudar a controlar os sintomas de humor e cognitivos na menopausa para algumas mulheres, juntamente com estratégias de estilo de vida e apoio específico para o TDAH. Essa é a minha experiência – e é por isso que sou tão apaixonada por falar abertamente sobre TDAH e menopausa juntos, para que outras mulheres não precisem esperar 52 anos para se compreenderem.

Se você se reconhece em alguma dessas situações, os próximos passos práticos podem incluir:

  • Conversar com um clínico geral ou ginecologista com conhecimento sobre menopausa sobre seus sintomas, incluindo cognição, humor e sangramento intenso, se isso fizer parte da sua história.
  • Solicitar uma avaliação de TDAH com um profissional de saúde experiente no diagnóstico de mulheres adultas.
  • Explorar opções de apoio: TRH quando apropriado, medicação para TDAH, terapia e mudanças no estilo de vida (sono, atividade física, alimentação).
  • Compartilhar recursos com seu parceiro ou familiares próximos para que eles entendam que isso não é “tudo coisa da sua cabeça” – é seu cérebro e seus hormônios pedindo apoio.

Seu cérebro não é preguiçoso. Você é uma mulher cujo sistema nervoso e hormônios têm carregado um fardo pesado, muitas vezes em silêncio. Informar-se sobre a menopausa e o TDAH pode ser o primeiro passo para finalmente sentir que sua vida – e sua mente – pertencem a você novamente.

Perguntas frequentes

É normal ter confusão mental durante a menopausa?

Sim. Muitas mulheres experimentam alterações na memória e na concentração durante a perimenopausa e a menopausa devido a mudanças hormonais, distúrbios do sono e alterações de humor. É comum e, muitas vezes, temporário.

A menopausa pode agravar os sintomas do TDAH?

Sim. As alterações hormonais podem tornar as dificuldades com concentração, organização e regulação emocional mais perceptíveis em mulheres que já têm TDAH ou estavam no limiar antes.

Por que esses sintomas aparecem mais tarde na vida?

Estratégias de enfrentamento que funcionaram por anos podem deixar de ser eficazes na meia-idade, quando os hormônios mudam e as responsabilidades, o estresse e as pressões relacionadas ao sono aumentam. É frequentemente nessa fase que problemas subjacentes de TDAH ou de função executiva se tornam mais evidentes.

Como posso distinguir entre a confusão mental da menopausa e o TDAH?

Os sintomas podem se sobrepor. A confusão mental da menopausa geralmente começa na faixa dos 40 ou 50 anos e pode variar junto com outros sintomas da menopausa, enquanto o TDAH costuma apresentar um padrão mais prolongado e ao longo da vida de desatenção, desorganização e sobrecarga.

É comum receber um diagnóstico de TDAH na meia-idade?

Sim. Muitas mulheres recebem um diagnóstico de TDAH na faixa dos 40 ou 50 anos, após anos sem diagnóstico ou com diagnósticos errôneos de ansiedade, depressão ou “apenas estresse”.

O que devo fazer se esses sintomas afetarem a vida cotidiana?

Se os sintomas interferirem no trabalho, nos relacionamentos ou no seu bem-estar, conversar com um profissional de saúde pode ajudar a esclarecer o que está acontecendo e quais opções de apoio estão disponíveis.

Isso melhora?

Para muitas mulheres, sim — especialmente com compreensão, o diagnóstico correto e apoio, como mudanças no estilo de vida, terapia, medicação e, quando apropriado, tratamento para a menopausa.

Este artigo tem caráter meramente informativo e não substitui aconselhamento médico profissional, diagnóstico ou tratamento. Sempre converse com um profissional de saúde qualificado ou com seu médico de família sobre seus próprios sintomas, preocupações e opções de tratamento, incluindo TRH e medicação para TDAH. Nunca ignore, adie ou altere orientações médicas com base em algo que leu online.

Referências – (em inglês)

Ann Moeller

Ann tem 54 anos e já está na pós-menopausa. Santista, mora na Europa desde 1990. Já esteve em Portugal, Alemanha, Inglaterra e, desde 2020 mora na Polônia. Estudou engenharia, trabalhou com marketing e criou e atuou como editora-chefe do site Brasileiras Pelo Mundo. Ann tem um casal de filhos adultos, adora dançar, nadar, música gótica e dos anos 80, quebra-cabeças e dias de inverno com neve. É apaixonada por psicologia — especialmente TDAH — depois de receber seu próprio diagnóstico aos 52 anos. Tem a síndrome de Ehlers-Danlos (tipo hipermobilidade), então conhece na prática os desafios da menopausa com dor crônica, fadiga e um sistema nervoso sensível. Silverlocks reúne sua experiência de vida, curiosidade, pesquisa sobre o “temido M” e histórias sinceras para mulheres prontas para abraçar um novo capítulo em suas vidas.

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